14 de fevereiro de 2017

ENTREVISTA: Suu Morishita



Especial de Valentine's day com Suu Morishita, uma dupla de mangakás formada por Natiyan como a desenhista e Makiro como a roteirista. A entrevista foi concedida ao Comic Natalie na época de término de Hibi chouchou.  Elas falam sobre a série e contam como se tornaram mangakás





"O TEMA ERA AMOR PURO, MAS NÃO QUERÍAMOS AGITAR"

CN: Primeiramente parabenizamos pelo final do mangá. Foi uma série longa com 12 volumes.

Makiro: Estou aliviada.

Natiyan: Isso mesmo, ficamos aliviadas pensando: 'Acabou!' 
Foi a primeira série longa, então escrevemos dando o sangue.

Makiro: No começo não decidimos quantos volumes o mangá iria ter, e acabou por sabermos quase que no final. Tudo escrito capítulo por capítulo dando nosso sangue.

Natiyan: Achamos que se fôssemos continuar o mangá, talvez desse pra escrever mais uns cinco volumes.

CN: A série começou com um One shot na revista Margaret #24 de 2011. Como nasceu a história de amor desajeitado entre a garota quieta e o garoto lutador de karatê?

Makiro: Começou com o fato de eu querer usar de qualquer jeito o título 'Hibi Chouchou' (literalmente 'Os dias da borboleta'). Com esse título será que não lembraria uma garota que parece uma flor... e aos poucos foram aumentando as idéias. Também pensamos que não há muitos mangás aos quais os dois protagonistas não conversem muito. Fomos desenhando e pensando em 'uma garota que fosse quieta à tal ponto que... Vamos fazer o mangá que mais tem a fala "..." (rs)



CN: Foi surpreendente a personagem Suiren só ter falado uma única palavra no primeiro capítulo. Porque Kawasumi é um lutador de karatê?

Makiro: Pensamos em um esporte que fosse mais másculo e só podia ser o karatê. Temos um
conhecido que já fez o esporte também.

Natiyan: Na época que fizemos a sequência de one shots (a série foi publicada em one shots antes de ser serializada) Kawasumi ainda era um pouco paquerador, um garoto normal.

Makiro: Apesar que na época também queríamos que ele fosse mais puro...

CN: No capítulo 8 vocês escreveram da perspectiva de Kawasumi. Qual foi o significado disso?

Natiyan: Qual era mesmo?

Makiro: Recebemos a ideia da editora da revista. Ela disse: 'Gostaria de ler o que o Kawasumi pensa..." Me lembro dela ter mencionado que quem está lendo parece estar mais na perspectiva de espectador.

Natiyan: Ah verdade.



CN: Verdade, porque os sentimentos dos dois não tem dúvidas, então dá realmente essa sensação. No primeiro volume a personagem Koharu aparece como rival, mas Kawasumi não dá bola e os leitores não ficam ansiosos.

Makiro: 'Poderia ser um casal assim' pensei. O tema era o amor inocente. Então não queria que eles ficassem indecisos.


QUERO UM MANGÁ QUE PAÍS É FILHOS POSSAM LER

CN: O amor de Suiren e Kawasumi é uma mistura de puro e ingênuo, caminhando num ritmo bem devagar. No final do volume #1 eles se conscientizam dos sentimentos um pelo outro, e no volume #4 os sentimentos se tornam mútuos. Mas ficam na dúvida pensando: 'Se a gente namorar como será...' e depois disso demoram um volume inteiro até começarem a namorar de fato. O leitor fica, por um certo instante, ansioso.

Makiro: Eu queria que não fosse um mangá que os pais precisassem ler escondido, mas um mangá ao qual os pais pudessem ler junto com os filhos. Então achei que não seria o caso de ter muitos beijos. Nas cartas dos fãs fiquei muito feliz quando lia que estavam lendo junto com os pais.

Natiyan: Os dois tem muitos momentos sem conversa alguma, então foi bem difícil desenhar essas cenas. No volume #5 na cena da cafeteria ele ficam um bom tempo assim, não há falas, os cabelos deles são brancos (mangás são preto e branco apenas usados), não tendo como usar de artifícios de cenas de ação e da personalidade - 'Então eu usarei os ângulos. Mas como irei compensar a cor branca do cabelo deles...' e fiquei intrigada com isso. Mesmo hoje quando leio lembro como foi difícil.

Makiro: Eu também me lembro que na época do volume #1 foi bem dura, E entre os volumes #2 e #3 tivemos apenas alguns capítulos entre o a criação escrevendo o Nemu (esboço da aprovação do editor) e a publicação na revista. Vendo essa parte do mangá realmente vem um pouco de sentimento ruim... rs


CN: Vocês se casaram, se tornaram donas de casa, e aí então resolveram fazer a parceria para serem mangakás.

Makiro: na época que estudávamos juntas e também na faculdade pensamos: 'Vamos nos tornar mangakás juntas!', mas isso individualmente. Mas nessa época a gente meio que desistiu.

Natiyan: Nos casamos e fomos morar em províncias diferentes, mas continuamos próximas, então eu li o mangá 'Bakuman' e me veio a ideia 'Podíamos fazer isso juntas!' E então liguei pra Makiro. Eu sei desenhar, mas desisti porque não sei escrever histórias, mas eu sabia que Makiro sabe escrever bem. Ela deve conseguir escrever uma história seguida da outra sem problemas.

Makiro: Acaba dando tédio né... Mas em contradição eu pensei que não poderia pensar isso quando vimos que, assim, conseguimos escrever bem mas rápido.

Natiyan: Escrevemos sem rascunho direto no manuscrito.

Makiro: Risos. Quando Natiyan me ligou eu fiquei muito feliz e disse 'Isso é ótimo!' E até enviei correspondências. Nosso sentimento inicial era 'Vamos fazer um juramento de amizade, quando terminarmos vamos postar para alguma editora!' Tivemos sorte de ser escolhidas por um encarregado da revista Margaret.




"NÃO PODEMOS FALAR SOBRE NOSSA EVOLUÇÃO DAQUI PRA FRENTE"

CN: A história e o desenho são trabalhos feitos separadamente?

Makiro: Sim. Eu escrevo o nemu, Natiyan envia para a supervisora que faz a checagem, Natiyan faz os desenhos e também são checados, então ela passa à limpo, nessa sequência.

Natiyan: a cada meio ano fazemos uma reunião para falar de alguma história mais comprida, mas no geral não podemos ensinar como é nossa evolução.

Makiro: Mas ela é bem maldosa!

Natiyan: Ahahaha

Makiro: Mesmo escrevendo como falado na reunião, ela vai mudando cada vez mais. Por isso tem vezes que ela não me fala...

Natiyan: quando o Nemu ficava pronto a minha primeira reação era "ooó..". Pensava que 'Depois dessa cena poderia terminar assim' e então fica de um forma totalmente diferente. No volume #2 na cena que a Suiren pára o Kawasumi no meio da chuva foi assim. Depois disso você pensa 'o que vai acontecer agora?' E então quando vi a cena depois pensei que terminou mais facilmente do que imaginei.

Makiro: Ué, então não foi como esperava...

Natiyan: pode parecer que é pouco (rs) mas não é isso, é que não é normal, é engraçado. A maneira de continuar uma cena basicamente tem a característica da Makiro. Eu mesma achei isso, e será que os leitores também não devem ter achado?

Makiro: Será? Eu tento escrever pensando que não devo fazer cálculos. Quando a série acabou houve o sentimento de realização, mas na verdade eu mesma não me lembro muito como foi que escrevi.

Natiyan: É bem isso mesmo. Nas reuniões não há nada do tipo 'Vamos fazer assim, deixa eu anotar isso!', mas tudo acaba muito leve. Não há muita conversa (rs). Também há vezes que conversamos algo na reunião e no nemu está diferente.

Makiro: Eu sinto que há muitas vezes que as falas dão um grande impacto no progresso da história. Uma palavra para o personagem pode ser algo muito, muito grande e que pode ir gradativamente mudando. Os monólogos 'que não precisam de palavras' tinham que ser incluídos por causa da protagonista que não conversa, então deixei anotado, e foi ótimo ter usado na cena dos fogos de artifício no volume #2. Os fogos desenhados pela Natiyan ficaram lindos e eu gostei muito dessa cena.


REALMENTE NÃO PRECISAVA DE KABEDON?

CN: Quando entrevistamos a Sakisaka sensei (Comic Natalie já entrevistou antes) ela disse: 'Estou escrevendo com muito cuidado para que os leitores possam sentir a paixão nos seus corações'. Vocês sentem que querem que os leitores sintam a paixão em seus corações?

Makiro: Sim. Sempre pensamos em 'o que é sentir a paixão dentro dos nossos corações?', assim como na hora em que o coração se acelera somente de os olhos se encontrarem. Quero escrever sobre o primeiro amor propriamente dito. Mas eu não sou dessas pessoas que planeja as coisas, nem tenho nenhum esquema, não sei porque, não consigo... Em vez de falar 'Nessa hora vamos colocar isso' ou coisa do tipo, eu escrevo o que sinto naquele momento com muita importância. 

CN: Você não usa nem um tipo de 'golpe mortal' como o kabedon? (Colocar a garota contra a parede)

Makiro: Já teve horas que pensamos se não deveríamos colocar.

Natiyan: Em 2014 nós fomos no festival escolar da Seventeen, onde estavam presentes os atores Sota Fukushi e Yudai Chiba, e eles fizeram kabedon olhando para a câmera. As meninas presentes ali viram isso e gritaram estéticas 'Kyaaaa'. Será que o kabedon não é necessário? Será que é melhor ter esse tipo de cenas que deixam o coração acelerado?' Tivemos uma conversa assim.

Makiro: No fim não colocamos, pois iria estragar a personagem (rs).


UM POUCO QUE FOSSE COBRADA JÁ SERIA RUIM

CN: Vocês duas foram da mesma classe no colegial por três anos, há partes vividas nesse período que foram retratadas na criação do mangá?

Makiro: Hum, não há nenhuma parte exata, mas com certeza me lembro de histórias de amor que Natiyan contou, e dúvidas das amigas que colocamos e que deram uma nuance na cena.

Natiyan: O que lembra nossa época de escola no mangá seria a excursão do volume #1. No nemu não escrevemos detalhadamente sobre a localização, então pensamos se poderia ser a praia de Miyazaki, nossa terra natal. Foi só ir relembrando e desenhamos facilmente, sem necessidade de material algum (procurar alguma fonte para escrever).

Makiro: em mangá shoujo tem muita excursão na montanha. Dá pra fazer eles se perderem.

Natiyan: se perder na montanha, começar a chover e se proteger na caverna.

CN: Verdade.

Makiro: Estava chegando a época das excursões e a encarregada veio perguntar, e para não ser cobrada resolvi fazer da praia. Acho que eu tinha um sentimento forte de que, um pouco que fosse cobrada, já seria ruim.



OS DESENHOS TEM MAIS INFLUÊNCIA DE MANGÁS SHOUNEN

CN: Gostaria de ouvir das obras que vocês gostam. Que tipo de mangás vocês leram?

Natiyan: 'Koukou debut' da Kazune Kawahara. Esse mangá shoujo foi minha primeira paixão!

Makiro: Eu li, eu li! A (Ryo) Ikuemi tem uns títulos de mangás estilosos. 'Bara no ashita', 'Ashita ga itemo inakutemo' por exemplo. E 'Renai Catalog' acho que todas as amigas já leram. 

Natiyan: Todas eram doidas pelo Takada kun, Takada kun era o símbolo de homem ideal.

Makiro: Também li a autora Aruko. De 'Shuudensha' a 'Starless Blue'. Acho que lia os one shots da autora desde a estreia dela em tempo real. Os monólogos e a maneira de usar o tone (estampas de fundo das ilustrações) é arrebatador.

Natiyan: Hum, a Aruko daquela época era chocante. Era um traço elegante e característico que influenciou a todos. Eu tenho grande influência de 'Watashi Biyori' de Mao Hashiba. Mesmo mudando de época isso não influi e ainda hoje tem dá aquela derretida no coração. Depois tem 'Sugars' da (Mika) Yamamori, na época que eu li pensei "Se tem uma mangaká da mesma idade que eu que desenha bem assim não dá ".

CN: Vocês liam a Margaret e a Betsuma?

Makiro: Sim. Era a época que li 'Hana Yori Dango', 'Parfait Tic!' e 'Koisuru 1/4'. 'Massugu ni ikou' também, comprava a Betsuma e lia entre irmãs.

Natiyan: Sério? Meu pai gostava de mangás e em casa era lotado de shounen mangás, então na verdade a época que comecei a ler mangás shoujo foi no primeiro período (do colegial). Falam que meu traço é leve, mas isso é influência de Masakazu Katsura. Parece que os cabelos se movem sozinhos. A sensação é de ter lido mangá shoujo de verdade mesmo depois da nossa estréia, com mais influência de Shounen mangá no traço.












A PUPILA DE SUIREN EM CADA QUADRO É DIFERENTE

CN: Olha só. Na verdade há uma coisa que eu fiquei intrigado no mangá Hibi Chouchou, a força das cenas de karatê não são força de mangá shoujo em geral.

Natiyan: Eu ia brincar com isso agora (rs). Na hora que me falavam pra fazer como eu quisesse eu dizia "Vamos lá!" e desenhava com paixão. Eu gosto de cenas de batalha.

CN: Senti na imagem uma atitude extraordinária. Você foi ver alguma luta de perto?

Natiyan: Eu vi lutas pelo YouTube, e também travei batalhas dentro da minha cabeça... Como o sistema do (Masashi) Kishimoto. Apesar de que nem consegui fazer direto! Eu acho mais legal desenhar os garotos. A Suiren é a Takane no Hana (A flor do topo da montanha) e, por ter que desenhá-la bem bonita, acho difícil.

CN: Suiren é uma personagem que quase não fala, foi difícil fazer as mudanças de expressões dela?

Natiyan: Hum, não foi tão difícil assim. Eu basicamente lia o nemu e a imagem surgia na mente. As suas expressões corriqueiras expressei dentro da pupila dela.



CN: Dentro da pupila?

Natiyan: Eu faço a pupila de Suiren em cada quadro diferente. Não é somente porque não sei desenhar igual. A sensação de querer romper em lágrimas ou quando está em choque, Suiren tem todas as suas emoções expressadas pela pupila.

CN: Há vezes que Makiro diz que quer que faça de tal modo em relação ao seus desenhos?

Natiyan: Até mais ou menos entre os volumes #2 e #3 ela pedia para não deixar tão vermelha ou aumentar a expressão e raiva e mais algumas nuances, mas atualmente não há mais.

Makiro: Fizemos por longo tempo. Aos poucos as expressões de Suiren foram surgindo. Na primeira metade ela quase não tinha expressão facial e ficava vermelha muitas vezes, então eu achei que ela deveria ter outras expressões.



ACREDITO QUE SE NÃO HÁ COLABORAÇÃO NÃO TEM COMO SE TORNAR MANGAKÁ


CN: A parte em caricatura foi critério da Natiyan? A cara da Aya chan parecendo Gachapin (mascote japonês) aparece várias vezes e eu fiquei intrigado.

Natiyan: Ué, só desenhei como a Makiro escreveu no nemu...

CN: Eeee!

Natiyan: O heart chan e os mascotes também, foram na maioria dos desenhos da própria Makiro. Raramente algum mob (mascote digitalizado), mas o colega de classe Itou também desenhei como estava. Sobre os olhos da Aya eu não sabia como dividir e voltar os olhos dela ao normal depois (rs). Então eu pensei aleatório.

Makiro: Então a Aya chan aqui foi desenhada normalmente e acabou ficando com olhos de gag mangá?
Acontece, acontece.

Natiyan: rs

Makiro: Mas acho que tá bom né (rs)

Natiyan: Eu pensei "Será que tudo bem?" e me lembro de ter me empolgado dizendo "Aqui será que é melhor voltar ao rosto original? Ah, tá bom, deixa assim, vamos lá". O nemu da Makiro tem várias partes inexplicáveis, mas isso que é engraçado. Sempre leio umas 4 vezes digerindo bem, aí pergunto se não entendo algo, mas ultimamente parei de perguntar.

Makiro: Eu fico ansiosa esperando os desenhos da Natiyan. Algumas expressões desenhadas normalmente, e outras que penso "Ah, ficou assim!". A verdadeira emoção de se trabalhar em equipe é não saber o que virá do parceiro.

Natiyan: acho que temos um grande senso de colaboração. Acredito que sem colaboração não haveria como nos tornarmos mangakás.

Makiro: Eu fico feliz porque Natiyan diz: "Se quer desenhar, então desenhe!" A gente nem briga.

CN: Vocês estão escrevendo capítulos extras de Hibi Chouchou. Já estão pensando no tema da próxima série?

Makiro: Gostaria de fazer um cenário na nossa terra Natal, mas não temos nada concreto ainda. Não sei se será um tema doce como de shoujo mangá. Com certeza teremos muitos personagens novos.

Natiyan: Eu... espero que os próximos personagens conversem mais! (Rs)

Fonte: Comic Natalie

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